A história recente da inovação mostra como ondas de entusiasmo podem levantar impérios e, logo depois, expor fragilidades. Foi assim com a internet no final dos anos 1990, com as criptomoedas na última década, com o metaverso há poucos anos — que chegou a mudar o nome do Facebook para Meta, mas foi atropelado pela ascensão das IAs generativas — e agora com a inteligência artificial.
Em poucos meses, vimos executivos como Mark Zuckerberg oferecerem pacotes de até 1 bilhão de dólares para atrair pesquisadores de IA e, logo em seguida, anunciarem o congelamento de contratações. Esse contraste revela o barulho do hype — anúncios grandiosos, manchetes impactantes, promessas de futuro imediato — e o silêncio do dia a dia, onde as empresas enfrentam a dura realidade de implantar tecnologia em processos complexos.
É importante destacar que muitos dos que estão por trás das empresas mais valiosas de IA têm incentivos diretos para inflar essa onda. Cada previsão exagerada ou promessa de revolução atrai novos investidores e sustenta avaliações bilionárias, mesmo quando não existe produto consolidado. Essa dinâmica é um dos motores que cria e mantém a bolha, que não nasce apenas do entusiasmo do público, mas também da estratégia deliberada de quem ganha com ela.
No mundo corporativo, porém, o que fica não são as promessas, mas os resultados. E é justamente aí que a inteligência artificial começa a se revelar: ainda poderosa, mas cheia de obstáculos para se firmar como motor de crescimento.
A bolha anunciada
Sam Altman, CEO da OpenAI, afirmou abertamente que vivemos sim uma bolha da inteligência artificial. A comparação dele é clara: a internet também foi uma bolha, mas uma bolha com um fundo de verdade. O valor existia, apenas estava inflado por expectativas irreais.
Hoje vemos startups de IA, muitas sem produto pronto, receberem bilhões em investimentos. Entre elas, está a Safe Super Intelligence, criada por um ex-funcionário da própria OpenAI, já avaliada em mais de 30 bilhões de dólares. Outro caso é o de Mira Murati, também ex-OpenAI, que fundou sua própria empresa de IA, avaliada em mais de 10 bilhões.
A reação do mercado também sinaliza o início de um esfriamento. Ações de gigantes como Nvidia, Meta, Google e Microsoft já sofrem quedas depois de picos históricos. Não é um colapso de 50%, mas como em qualquer bolha, o tombo começa com tropeços pequenos.
A questão não é se a IA tem valor — porque tem — mas até onde o mercado vai sustentar expectativas infladas sem base em resultados concretos.
O que o estudo do MIT nos revela
No meu artigo anterior analisei um estudo publicado pelo MIT que trouxe um dado alarmante: 95% dos projetos de inteligência artificial generativa fracassam dentro das empresas.
A pesquisa envolveu entrevistas com líderes, funcionários e análise de mais de 300 implantações públicas. O que apareceu foi um padrão claro:
- Uso individual funciona melhor: ferramentas de IA ajudam muito quando a pessoa tem liberdade para se adaptar e buscar soluções criativas.
- Ambiente corporativo rígido é barreira: dentro das empresas, onde processos são engessados, a IA encontra dificuldades para gerar resultados.
- Maior retorno em tarefas de apoio: os ganhos mais concretos ainda aparecem em áreas administrativas e rotinas repetitivas, e não em marketing ou vendas, como muitos imaginam.
Esse dado mostra que a dificuldade não está na tecnologia em si, mas no modo como ela é implantada. A IA exige adaptação cultural e estratégica, não apenas técnica.
Entre hype e prática: dois caminhos possíveis
Enquanto alguns líderes do setor alimentam previsões quase mágicas — como a ideia de que a IA escreveria praticamente todo o código de software em poucos meses —, a prática mostra algo bem diferente.
Tenho acompanhado de perto exemplos em que a IA realmente melhora a eficiência de equipes, mas de forma muito mais pé no chão. Em uma grande empresa internacional, por exemplo, a tecnologia permitiu que profissionais de áreas criativas passassem a colaborar em atividades que antes ficavam restritas a especialistas técnicos. Isso liberou os especialistas para focar em decisões mais estratégicas e de maior valor.
Esse contraste ilustra bem os dois caminhos possíveis:
- O hype: previsões irreais, que geram expectativas e investimentos, mas não se confirmam.
- A prática: uso direcionado, que aumenta a produtividade em tarefas específicas e dá suporte real para o trabalho humano.
Assim como o computador foi chamado de “bicicleta da mente”, a IA pode ser vista como uma “moto da sabedoria”: ela multiplica o que você já sabe. Quem domina um assunto consegue produzir muito mais. Quem não domina, apenas multiplica erros.
O papel do empresário diante da bolha
Para nós, empresários, a lição é clara: não tratar IA como moda, mas como ferramenta estratégica.
Automatizar processos secundários pode gerar ganhos imediatos. Já no core business, naquilo que diferencia a empresa, a presença humana continua insubstituível.
É justamente aí que mora a vantagem competitiva. Empresas que terceirizavam tarefas menos críticas agora conseguem resolvê-las com IA, reduzindo custos e aumentando eficiência. Mas quando se trata de criar valor único para o cliente, o toque humano continua decisivo.
Conclusão: quando a inovação se torna crescimento real
Estamos no meio de uma transição. Parte da bolha da IA vai estourar — startups infladas vão desaparecer, investimentos desmedidos vão secar. Mas a essência da tecnologia permanece, cada vez mais presente no dia a dia das empresas.
O empresário que souber diferenciar hype de prática terá vantagem. A inteligência artificial não vai embora. O que muda é a forma como será usada: menos em promessas revolucionárias, mais em ganhos reais e sustentáveis.
Adotar a IA com estratégia é justamente isso: transformar a vida dentro da empresa, aliviando tarefas repetitivas, e a vida fora dela, entregando mais valor ao cliente.